David Santos

Um pouco de história

Entrar no mundo do ferreomodelismo foi, para mim, um caminho sem volta. Lembro-me como se fosse ontem, quando ganhei, de um conhecido, uma reportagem do Estado de Minas intitulada “Apaixonados por Locomotivas”, que tentou transformar em texto o carinho que algumas pessoas sentem pelo trem de ferro, expresso na forma de miniaturas. Naquela dia, 26 de março de 2002, com dez anos de idade, troquei o trem à pilha pelo trem elétrico e mais um apaixonado por locomotivas em miniatura surgia em Minas Gerais.

O jornal trouxe uma reportagem sobre a Associação Mineira de Ferreomodelismo – AMF –. O endereço e o horário de funcionamento estavam no pé da página. Imediatamente combinei com meu pai de irmos lá. Não deu outra. Passei uma tarde inteira de sábado lá, perguntando e tentando entender como fazer parte daquele pequeno universo reduzido em 87 vezes.

Saímos de lá com o telefone e o endereço das lojas na mão. Com bastante custo, encontramos uma caixa básica em uma das lojas. Meu primeiro trem elétrico, minha primeira miniatura, não carregava nenhum sentimento além da vontade de ter e de poder me embriagar com os detalhes.

O trem era pequeno e simples: uma locomotiva a vapor Consolidation da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e três carros de passageiros. O trem era lindo, mas andava somente em um circulo pequeno, algo muito distante da complexa e bem elaborada maquete da AMF que tinha visto semanas atrás. Logo tratei de construir um tablado simples, com alguns poucos trilhos. Era a vez da experimentação. Põe trilho, tira trilho, ensaia um cenário, uma casinha tímida meia dúzia de árvores e uma estação. Pareceu que a diversão estava garantida, mas era só impressão. Logo veio a vontade de construir montanhas, túneis, pontes, pátios de manobra e tudo aquilo de deslumbra e faz brilhar os olhos dos ferreomodelistas de primeira viagem.

No meio destas descobertas, uma agradável surpresa. Meu pai me levou para conhecer, do alto do viaduto de Santa Tereza, no centro de Belo Horizonte, o trem de passageiros que liga a capital mineira a Vitória, no Espírito Santo. Foi paixão à primeira vista. Logo em seguida, fiz minha primeira viagem pela EFVM, vendi o trem da Companhia Paulista, comprei uma G12 da EFVM e uma pequena composição de carros de aço carbono. À primeira vista, tudo estava ótimo, mas logo surgiu a necessidade de ter exatamente os modelos do trem em que viajei. Na época recorri a dois grandes ferreomodelistas de Belo Horizonte: Sallomão e Gilser, que me atenderam prontamente. Sallomão cuidou de detalhar minhas G12, enquanto o Gilser construiu, meus  carros de passageiros da EFVM.

Minha vontade à época era encomendar com eles tudo que eu queria. Mas os preços eram incompatíveis com nossa realidade financeira, já que eu era uma criança e ainda não trabalhava. Logo veio a grande ideia: Porque eu não faço meus próprios modelos?

Com incentivo de meu pai, tratei logo de experimentar. Meu primeiro modelo em escala Ho foi uma estação. Tentei reproduzir a estação Bernardo Monteiro da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas que fica em minha cidade, Contagem. Foi feita de cartões telefônicos e plástico de gôndola de supermercado. Feliz com o resultado me aventurei em meu primeiro modelo de carro de passageiro: um carro gerador da EFVM. Usei técnicas de lanternagem, já que via meus vizinhos lanterneiros concertando carros todos os dias. O gerador não ficou, nem de perto, parecido com o real, mas foi um pontapé necessário. A partir daí, a insegurança cedeu lugar à experiência e comecei a produzir modelos mais elaborados. Minha primeira pintura comercial foi feita para um amigo do Espírito Santo. Era uma SD45 da EFVM. Depois desta primeira, um leque de possibilidades se abriu. Já com 17 anos, no ensino médio, minha rotina era sair da escola e trabalhar com modelos por horas a fio, inclusive aos finais de semana. Mais experiência, mais vontade e mais dedicação culminaram na construção da minha atual maquete, iniciada em 2009. O projeto foi elaborado pelo Sr. Ramiro Nascimento, cujas mãos traçaram incríveis linhas: Uma combinação perfeita de retas e curvas que me encheram de vontade de ir a fundo no ferreomodelismo.

Pouco depois fui convidado pelo Sr. Severiano da Silva Filho para executar a reforma da maquete do Museu da EFVM em Vitória. Foram 30 dias de aprendizado e muito trabalho. Mas o resultado foi ótimo: a maquete, que não funcionava há pelo menos dois anos, voltou a operar e está funcionando até hoje.

Logo depois, uma nova experiência, também oferecida pelo Sr. Severiano: construir, em escala 1:200 a maquete de uma usina de beneficiamento de minério para a MMX, a fim de ilustrar para a comunidade onde seria instalada, como ficaria o local após todas as intervenções.

Ao mesmo tempo, me dedicava às pinturas, construções, à minha maquete, aos meus cursos, amigos e família. E mesmo depois desse tempo, 16 anos no ferreomodelismo, o que mais me instiga é a possibilidade de descobrir novas e melhores formas de fazer uma das coisas que mais gosto na vida: construir miniaturas ferroviárias.

As publicações deste site têm, como um de seus objetivos, recontar minha experiência enquanto ferreomodelista, a fim de ajudar aos amigos do hobby, principalmente os que desejam produzir ou detalhar seus próprios modelos, apresentando, com base em minha experiência, as melhores técnicas e materiais. Mãos à obra!